terça-feira, 24 de abril de 2012

Filme expressionista de 1927 inspira moda atual


Coleção outono/inverno 2012 da Adidas SLVR é inspirada no filme Metrópolis
A coleção
Chega com tudo a coleção SLVR da adidas para o otono/inverno 2012. GQ teve acesso às primeiras imagens do lookbook, fotografado por Willy Vanderperre, e notou que a marca deu um upgrade e tanto em relação à última linha. A inspiração da vez é o filme alemão expressionista Metrópolis, de 1927. Com a dreção criativa de Dirk Schönberger, a SLVR apresenta peças refinadas, construídas a partir de uma visão mais conceitual da funcional e esportiva icônica marca de sportswear.

O filme

Uma visão expressionista, convulsiva e pessimista de um futuro que acenava temivelmente próximo. Um sonho de uma distopia social envolto a um exercício de futurologia realista. Impossível descrevê-lo em tão poucas palavras, mas Metropolis, produção alemã de 1927 do diretor e visionário Fritz Lang, é isso e muito mais.
A obra foi uma das empreitadas mais caras do período que antecede o áudio. As altas cifras da época podem ser justificadas, talvez, pelas imagens incríveis e de altíssimo poder de impacto que arrebatam o espectador pelos quase 150 minutos de puro realismo fantástico. O filme é um dos pontos máximos do Expressionismo Alemão, movimento que lapidava as maiores atenções às imagens e às interpretações na compensação da ausência do som.
Metropolis é uma cidade que reúne todas as características do que se conjeturava ser o futuro da humanidade. O sonho de Lang se passa em 2026, exatos cem anos após o início da concepção das filmagens (1926). O homem perdeu todo seu ímpeto independente ao passo que se tornou umbilicalmente subordinado às máquinas e à tecnologia representada por elas. Os avanços tecnológicos, porém, promoveram uma cisão abismal entre as classes sociais. Alguma similaridade com os dias atuais?
A mão de obra braçal que dava sentido ao coração mecânico, razão de ser de Metropolis, era relegada a um submundo subterrâneo e distante. Cabisbaixos e autômatos, à massa domesticada restava operar suas engrenagens em movimentos simétricos, como num balé gótico. Como não lembrar as pessoas feitas gado dentro de vagões rumo aos campos de concentração nazista? À elite, “restava-lhe” saborear os ares e aromas de outro mundo, uma apoteose existente na superfície, cortado por infinitos arranha-céus, veículos futuristas e um sem número de vias, que assombravam um anseio de “jardim das delícias”, legado dinástico dos antepassados a seus filhos bem nascidos.
“Mas você não teme que um dia eles se rebelem contra você”, indaga Freder, num lampejo maturo, o jovem tolo, filho do mentor da cidade pirotécnica, o poderoso Joh Fredersen.
Freder, o qual tinha o bel prazer do deleite de qualquer mulher da terra alta, encanta-se pela plebeia Maria, uma mulher simples que começa a gestar o início de uma revolução. Com ela e por ela, o jovem magnata apercebe-se de uma nova realidade, tão verossímil, assustadora e  injusta, vista a olhar de lupa por meio dos claros olhos da amada. Não demora para que o bom moço troque de lado e sinta na pele as agruras do operariado. Ao descer à estação das máquinas e presenciar um acidente, o jovem tem uma visão; uma simbiose máquina-deus pagã, que come os seres humanos num sacrifício digno da dinastia inca. Uma cena de beleza rara.
Ao encontrar Maria nas profundezas desconhecidas da cidade, Freder, atônito, nos revela uma líder que prega a justiça pela palavra branca, pelo consenso e não pela violência. Dentro de uma profecia enunciada pela mulher, haveria de surgir um providencial mediador, que teria o discernimento de promover a conciliação entre os dois mundos. Alguém que materializasse o cerne dentro da máxima “o coração é o mediador entre a cabeça e as mãos”.
Talvez, não por acaso, a jovem recebera o nome de Maria. Ela aguarda o mediador, um redentor messiânico, que encontra sua razão de ser na promoção de uma paz perene. Alguém a que todos apontarão como rei, mas que tem como objetivo de seu reinado em terra a missão de promover a comunhão de seu povo com seu pai, aqui, morador da Torre de Babel. Não distante dos simbolismos divinos, o clone de Maria, representação imagética do lado mais vil da tecnologia a serviço da bestialidade, uma falsa profetisa, leva o nome de Hel (hell, ou inferno em inglês). Não seria Hel a serpente que oferece a maçã embebida no veneno da discórdia? Seria essa a resposta pela escolha do pentagrama invertido que paira sobre sua cabeça robótica quando ela nos é apresentada? Sua imagem também nos confere a reflexão de quão nociva pode ser a tecnologia quando não usada com o coração entre a cabeça e as mãos.
A força imensurável de Metropolis reside no poder de reunir os mais ardis conflitos do século 20 em pouco mais de duas horas de fita. As dicotomias estão todas lá: o bem contra o mal, o operário contra o patrão, a ciência contra o humanismo, o autoritarismo contra a liberdade, a verdade contra a mentira. Maniqueísmos à parte, a obra figura no panteão das mais importantes da história do cinema. Era o filme preferido de Hitler e, por conseguinte, de Goebbels, que vislumbrava em Lang o cineasta oficial do terceiro reich.
Fugido para os Estados Unidos, o diretor daria sequência à sua profícua filmografia. Sua mulher à época, e roteirista de Metropolis, Thea von Harbou, deixou-se inebriar pela sedução ultranacionalista. São creditados a ela os vestígios arianos encontrados na obra. A Lang ficaram os louros de antever com maestria o colapso a qual rumava o homem naquele início de século, onde muitos acreditavam que o pior já havia passado, após o fim da primeira guerra e da revolução bolchevique.
O que Lang não podia prever era que Metropolis e sua força pictural ficariam enraizadas no ideário de toda uma geração.


Fontes: GQ Online e Cinema Velho


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